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Francisco Nery Júnior

Tive que procurar Tatá para me ajudar num pequeno trabalho de manutenção. Uma das coisas que os americanos têm para nos ensinar é a disposição (e o gosto) para mexer com as coisas dentro de casa. Mau gosto americano é uma expressão conhecida por todo o mundo. Mas eles são práticos. Comportam-se uns com os outros da mesma maneira que a gente vê nos filmes. Mas são doces e amáveis quando querem.
Tatá sempre almoça no Restaurante Popular - que foi uma dádiva do céu para ele. Come barato e come quantas vezes quer (fique certo que repete a fila várias vezes). Tem epilepsia, é o que os médicos dizem. Não pode trabalhar no pesado. Pode se cortar, cair da escada, interromper um procedimento da construção. Mas pequenos serviços que pode fazer nem sempre acontecem. Fica, então, Tatá, após se empanturrar com a comida barata, quase de graça, que é subvencionada pela prefeitura - o Prefeito Anilton soube manter o benefício para os mais humildes como soube também cortar gastos intoleráveis - sentado de plantão no beco entre a Rua do Coqueiro e a rua paralela.
Foi lá que hoje o encontrei depois de ter contactado duas ou três velhinhas simpáticas que por lá habitam. Levam a vida que podem neste país onde queremos dizer que acabou a miséria absoluta. O importante, agora, é a recepção que me deram. Desdobraram-se em gentilezas e amenidades. Saíram de suas casas e apontaram soluções, direções e informações da melhor maneira que puderam. Ajudavam sorrindo. Algumas com sorriso amarelo não sei se pela presença repentina de um estranho ou pela decadência inaceitável dos dentes que têm na boca. Os dentes resistem em ficar. Mas não têm condições de fazê-lo. O que quero dizer é que, pelo que vi, não podem mais cumprir a função para que foram destinados. Estão doentes e precisam de remédio. Como estão, estão a envenenar o corpo amaciado pelos anos de dureza que passaram. Escrevo estas palavras de coração tendo na mente a imagem das suas faces.
Elas precisam de tratamento dentário e não podem pagar. O dinheiro da Bolsa Família é para o estômago; e para os filhos e netos que não têm onde trabalhar. Porque nós outros trabalhamos e pagamos impostos, ousamos sugerir um amplo programa de recuperação dentária na nossa cidade. Sabemos que muito já foi feito. Sabemos que a sugestão cairá em ouvidos que sabem ouvir. O que queremos mesmo é ser felizes no meio de senhoras felizes que nos recebam a bocas largas e bonitas.
Não creio que tal programa seja tão caro assim. Ensaios bem-sucedidos de exames ginecológicos contra o câncer e de catarata contra a cegueira tiveram vida curta. Não entendemos porque não foram re-editados. Trata-se da saúde básica da polulação. O que mais ouvimos nos palanques em época de eleição é que saúde é prioridade. Vamos ajudar as nossas velhinhas a sorrir adequadamente o sorriso que sabem sorrir.
Por Francisco Nery Júnior
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